quando há silêncio
e o mar parece um lençol cansado com leves dobras da orla ao horizonte
surge um barco solitário
seria fácil rumar pelos versos e ir até lá
fazer as perguntas difíceis sobre a vida e a morte
ou inquerir sobre os ventos e o que é preciso para que um barco navegue
sentir as correntes passarem sob o casco
sondar a textura da água
que tipo de azul reflete ou o porquê de o fundo estar para lá do opaco
se a bordo há dúvidas ou certezas
ou se ambas duelam até uma espécie de decisão surgir sobre o que fazer a seguir
seria fácil
mas é em terra que vamos estando
ancorados a nós mesmos
enraizados para lá de nós até
e apesar de o olhar se escapar indomável
há tudo o resto que se nos atraca
um tridente de luz aguarda que chegue a noite para alumiar
fará de farol para quem esteja ainda ao largo
mas não sabe que é para os que estão em terra que fala
e o que diz varia consoante as estações
há um conforto que transmitem os lampiões a quem decide errar pelas madrugadas
sejam eles os loucos os ébrios ou os poetas
e na mudez que revelam durante o dia
vão empilhando os segredos que suspiram depois após o ocaso
o barco segue o rumo
seja ele qual for
e o mar continua num engilhamento perpétuo de si mesmo
como que a debater-se com o horizonte inamovível
e o céu
que uiva em azul
deixa o tal escape sideral do olhar lançar-se sem freio
tudo serve de desculpa para se escrever uns versos mais
seja porque há lugar para que palavras se ditem
ou porque elas próprias brotam do que surge assim num repente
há uma inevitabilidade em tudo isto
até porque o barco já sumiu
e o dia corre lento
como domingo que é
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