há qualquer coisa no outono que absorve parte da alma
e não é
como alguns dizem
o início de um fim
é uma outra coisa
não são as cores e o sol que parece despedir-se timidamente
não é também
a nostalgia de tudo o que nunca aconteceu e que agora definitivamente nunca irá acontecer
não são os pássaros a rumar a sul
nem as folhas a finalmente serem cada uma por si só
quando antes eram uma por todas e todas por uma
como os mosqueteiros que já ninguém lê
não são então esses mesmos livros que ninguém lê
não são os poemas que se escrevem por não terem outra forma de escapar ao silêncio
não é nada disso
o que será eu se calhar não sei bem
mas se enumerar tudo aquilo que não é
talvez o que seja enfim se revele
ou não
porque o tempo passa
e quando passa o suficiente
já o inverno provavelmente tudo anula
ou a primavera tudo pare
ou o verão tudo queime
há sim
no outono
esta indefinição leve de que tudo está bem
que há lugar para que cada coisa respire
e há
no outono
para cada um de nós
uma pausa que embala
quem sabe se nesta estação
onde o início e o fim se confundem
o que realmente tende a reverberar
são as quietudes adiadas de há muito
o descanso dos galopes desvairados do espírito
o render dos heróis ou a entrega dos covardes a um ato de valentia
poderá ser até
que por estes dias e semanas
o amor se aconchegue onde nem sabia existir
outono
a própria palavra é um segredo em murmúrio
e que ainda assim ecoa como um batimento de coração
enfim
amanhã o dia mingará um pouco mais
o tingir da luz seguirá pelos veios de uma aguarela ensonada
e curiosamente
descobre-se que o outono só existe durante o dia
a noite pertence sempre a uma das outras expressões sazonal
não há como parar de olhar
o outono é a cadência hipnótica de nós mesmos
a tentação da vertigem derradeira

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