dia 286 - outono

não há como parar de olhar
há qualquer coisa no outono que absorve parte da alma

e não é
como alguns dizem
o início de um fim

é uma outra coisa

não são as cores e o sol que parece despedir-se timidamente

não é também
a nostalgia de tudo o que nunca aconteceu e que agora definitivamente nunca irá acontecer

não são os pássaros a rumar a sul
nem as folhas a finalmente serem cada uma por si só
quando antes eram uma por todas e todas por uma
como os mosqueteiros que já ninguém lê

não são então esses mesmos livros que ninguém lê
não são os poemas que se escrevem por não terem outra forma de escapar ao silêncio

não é nada disso

o que será eu se calhar não sei bem
mas se enumerar tudo aquilo que não é
talvez o que seja enfim se revele

ou não

porque o tempo passa
e quando passa o suficiente
já o inverno provavelmente tudo anula
ou a primavera tudo pare
ou o verão tudo queime

há sim
no outono
esta indefinição leve de que tudo está bem
que há lugar para que cada coisa respire
e há
no outono
para cada um de nós
uma pausa que embala

quem sabe se nesta estação
onde o início e o fim se confundem
o que realmente tende a reverberar
são as quietudes adiadas de há muito
o descanso dos galopes desvairados do espírito
o render dos heróis ou a entrega dos covardes a um ato de valentia

poderá ser até
que por estes dias e semanas
o amor se aconchegue onde nem sabia existir

outono
a própria palavra é um segredo em murmúrio
e que ainda assim ecoa como um batimento de coração

enfim
amanhã o dia mingará um pouco mais
o tingir da luz seguirá pelos veios de uma aguarela ensonada
e curiosamente
descobre-se que o outono só existe durante o dia
a noite pertence sempre a uma das outras expressões sazonal

não há como parar de olhar
o outono é a cadência hipnótica de nós mesmos
a tentação da vertigem derradeira


Ontem, outono na Foz do Douro, Porto, outubro de 2026

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