dia 290 - outros

o desterro ia acontecendo por dentro

a grande planície da alma
derramava tanto espaço
que não havia como não estar sozinho

o horizonte parecia mais longe do que o possível

era assim que explicava o que sentira quando se isolou um inverno inteiro

tinha recuado para lá das montanhas
escapado da rotina e das gentes
levou apenas ele mesmo com ele

e agora que voltou
não parece ter-se trazido
ou então
o que trouxe
é um outro ele

a voz o rosto as mãos
diferentes do que eram
transmutadas por um exílio onde os dias e noites lhes moldaram novas formas e nova aparência

poderá ser impressão
nestas coisas
quando o tempo já cavalgou e da terra pisada ergue-se o cheiro do olvido
é difícil saber

ou pode ser até
que quem tenha transmudado sejamos nós que cá ficámos
e as coisas e as gentes e o mundo

a perspectiva é decisiva na avaliação

há quem diga que um quadro torto numa parede
pode muito bem estar direito
e que é o quarto inteiro que inclinou

enfim
é inevitável cair nestes ilogismos toda a vez que ele regressa

o absurdo de o ouvirmos
de partirmos com ele de alguma forma por esses desfiladeiros
de escalarmos os montes cuja neve tem séculos
de tocarmos as nuvens
e depois de voltar com ele num corpo estranho e num olhar novo

mesmo agora
em que ele
sentado a contar tudo isso
dá para notar que ele próprio se estranha
que timidamente vai-se conhecendo
surpreso até em descobrir rugas que não estavam na face antes
confuso com o timbre do que vozeia quando a emoção aperta
pasmado com os lanhos fundos nas palmas das mãos como se as sinas tivessem mergulhado para dentro da pele

ele concluiu que retornar era na verdade uma impossibilidade
que voltar era uma ilusão
que nada nunca é o que alguma vez já foi

a inocência é irrecuperável
e um erro e um crime
por muito que se repitam
não falam a mesma língua nem coalham o mesmo sangue

quando se calou
e com ele também nós todos
sabia-se que voltaria a partir
que hibernaria dele mesmo de nós e de tudo

nunca mais o veríamos
da próxima vez
ele e nós
seríamos outros


Lago de Zurique e os Alpes ao largo, Suiça, maio de 2016

dia 289 - esquecer

por entre as sombras das árvores
ele ia dizendo coisas

de como nunca se lembrava dos nomes
e de como no fim
provavelmente
também não reconheceria os rostos de quem cruzara

tudo nele era uma preocupação com a memória
do que sobraria após tudo acontecer
que ecos
ou vestígios

e sobrando
quem os descodificaria

quem seriam as testemunhas do passado
ou pelo menos
quem perderia tempo em conhecer o passado

esta mania
fazia com que o presente se lhe escapasse
o agora era uma indefinição
e tinha dificuldade em manter o discurso

nós ouvíamos e tentávamos apaziguá-lo
mas a dúvida começava a alastrar-se a todos

um de nós teve a ideia de propor um diário
escrever no fim de cada dia o que acontecera
e outro sugeriu que leriam o relato no início do dia seguinte

assim começou essa tradição
de nos juntarmos de manhã e relermos a véspera

nessas leituras o tempo não passava
a cada dia as discussões voltavam a um ontem
e cada ontem acumulava outros mais

demos por nós presos num instante
ancorados num labirinto cuja saída nos trazia de volta ao início

ninguém envelhecia
ninguém mudava
e os meses e anos pareciam estagnar
havia um tédio imenso a crescer por entre os silêncios

quem via de fora achava-nos loucos
tentavam até resgatar-nos desse impasse
mas em vão
o nosso círculo fechara-se de tal forma que nada o conseguia alcançar

curiosamente
aquele que temia não lembrar
afundava-se ainda mais na amnésia
os relatos matinais pareciam perdê-lo num esquecimento absoluto
e era preciso ensinar-lhe até o próprio nome

eu
foi por milagre que escapei
tendo ficado de cama um dia
quando regressei na manhã seguinte
nenhum deles me reconheceu
e ao lerem a véspera recente não me encontraram a não ser em breves menções de outros dias passados

discutiram entre eles e decidiram expulsar-me
mas nessa altura já eu tinha virado costas

dei por mim a acordar de um longo hipnotismo
e hoje
quando passo no jardim e os vejo reunidos
já nem sei que cara têm nem que nome carregam

se calhar é melhor anotar estas coisas e dedicar-me à releitura do que passou
e recomeçar uma vez mais
e outra ainda
até que o tempo dê a volta a si mesmo
e no fim do que ditam os devaneios
tudo ficar absolutamente igual
esquecido


Cefalù, Sicília, julho de 2016

dia 288 - escrevo

uma aldeia num vale
encafuada entre montanhas

o mar tão longe tão distante que nem existe
ou se existe
é num lugar remoto que se tornou um esquecimento desmesurado

ainda assim
nesse vale sem rio nem água
vejo sobre um dos telhados alguém a içar uma vela
e fazer da casa um barco pronto a singrar

ou talvez fosse uma bandeira
não importa
a ser bandeira
talvez fosse a de uma caveira branca sob um pano negro
um pirata pronto a rumar livre
e nas galés
mesmo se vazias
haveria o alento de remar para lá de um horizonte escondido pelas colinas

talvez os montes fossem ondas e haveria que galgá-las
fosse graças a um ímpeto tresloucado
fosse por um acaso de sorte milagrosa

e se não conseguisse
se se abatessem sobre as casas feitas embarcações essas vagas gigantes de granito e basalto
então que o naufrágio fosse total
que acabasse no fundo dos fundos
na mudez onde se repousa para sempre
junto das carcaças dos cachalotes e das grandes baleias azuis
junto das medusas e dos polvos cujos tentáculos se estendem entre os continentes

neste deserto
sob um marasmo intenso
havia que ser marinheiro
mesmo sem uma maré
mesmo sem um vento a soprar
havia que saciar essa sede de solidão

o que o silêncio dita
acaba sempre por arrebatar a alma
porque o segredo que nos assombra revela-se por inteiro
e face a nós mesmos
nesse encarar definitivo
o duelo é inevitável

não se escapa ao apelo dos céus e dos poços
a vertigem é uma queda da qual não se foge

quando dou por mim
estou em cima de um telhado a levar com a brisa quente vinda do vazio
com os olhos lançados ao largo
afinal sou eu que iço uma vela ou bandeira
e sem bússola nem compasso
sem conhecer as estrelas nem saber de rumos nem rotas
sem força que chegue nos braços para remar
ainda assim
recuso-me a ficar em terra

e então
escrevo


Parque Nacional de Timanfaya, Lanzarote, Canárias, julho de 2015

dia 287 - impressionistas

contava-lhe os sonhos
ela gostava
e ele não se importava

dito assim
não fica claro quem partilhava os relatos oníricos
se ela
se ele

e também não se resolvia o enigma
se ela gostava de ouvir ou de os contar
ou se ele não se importava de os contar ou de a ouvir a ela e a voz hipnótica que propalava

o impasse permanece

o que se sabe é que dessas partilhas
sobravam palavras pantanosas
que ao mesmo tempo revelavam texturas de lodo e húmidas
como cores a demorarem-se em tonalidades impossíveis

havia um lago que ensaiava o milagre de ser real
ele que era apenas descrito na confissão do que um deles parecia testemunhar no sono

terá sido um quadro que um ou ambos viram em tempos
e se calhar
o que um sonhou o outro acabou por reconhecer

depois ela gostou e ele não se importou
ou ele não se importou primeiro para ela gostar depois

nem sempre sei o que acontece a estes seres que se me vão aparecendo
e destes dois
parece que ainda menos sei
como se em dueto se protegessem da minha intromissão
negando-se a revelar mais do que aquilo que consegui no início
e esse pouco
apenas vazou porque os apanhei de surpresa

ninguém espera que um curioso apareça do nada
e que com os olhos indague e se imiscua por entre os silêncios e as falas que tanto ela e ele prezam

por muito que eu tente
ambos permanecem inacessíveis
vultos ao largo do meu alcance
absortos na observação desse lago irreal

e eu
por aqui
do outro lado
a hesitar entre um aceno ou um espiar dissimulado de como quem não se apercebe

eles lá vão estando
tecendo os seus dramas
excluindo-me desse mundo
esquecendo-me até para lá do que é concreto

no verdade
talvez tanto eles como eu
acabámos de desmergulhar desse lago impressionista
e dos nossos corpos
para além das cores também as almas vão escorrendo em emoção


"Le Bassin aux Nymphéeas, le soir" de Claude Monet, Museu de Arte em Zurique, Suíça, abril de 2025

dia 286 - outono

não há como parar de olhar
há qualquer coisa no outono que absorve parte da alma

e não é
como alguns dizem
o início de um fim

é uma outra coisa

não são as cores e o sol que parece despedir-se timidamente

não é também
a nostalgia de tudo o que nunca aconteceu e que agora definitivamente nunca irá acontecer

não são os pássaros a rumar a sul
nem as folhas a finalmente serem cada uma por si só
quando antes eram uma por todas e todas por uma
como os mosqueteiros que já ninguém lê

não são então esses mesmos livros que ninguém lê
não são os poemas que se escrevem por não terem outra forma de escapar ao silêncio

não é nada disso

o que será eu se calhar não sei bem
mas se enumerar tudo aquilo que não é
talvez o que seja enfim se revele

ou não

porque o tempo passa
e quando passa o suficiente
já o inverno provavelmente tudo anula
ou a primavera tudo pare
ou o verão tudo queime

há sim
no outono
esta indefinição leve de que tudo está bem
que há lugar para que cada coisa respire
e há
no outono
para cada um de nós
uma pausa que embala

quem sabe se nesta estação
onde o início e o fim se confundem
o que realmente tende a reverberar
são as quietudes adiadas de há muito
o descanso dos galopes desvairados do espírito
o render dos heróis ou a entrega dos covardes a um ato de valentia

poderá ser até
que por estes dias e semanas
o amor se aconchegue onde nem sabia existir

outono
a própria palavra é um segredo em murmúrio
e que ainda assim ecoa como um batimento de coração

enfim
amanhã o dia mingará um pouco mais
o tingir da luz seguirá pelos veios de uma aguarela ensonada
e curiosamente
descobre-se que o outono só existe durante o dia
a noite pertence sempre a uma das outras expressões sazonal

não há como parar de olhar
o outono é a cadência hipnótica de nós mesmos
a tentação da vertigem derradeira


Ontem, outono na Foz do Douro, Porto, outubro de 2026

dia 285 - destinos

por vezes chega-se a um lugar
outras vezes não se chega a lugar nenhum

é certo que em ambos os casos há um percurso
e isso em si tem a sua importância

mas é no destino que se fazem as contas
é após a meta que tudo ganha contorno e onde o passado se revela

e aí
no fim
o que está para trás pode finalmente ser real

fica
no entanto
dependente dessa chegada
do chão ou da falta dele

como as sombras que necessariamente precisam de luz para engolir
e então se desenharem no vulto definido da sua existência

não há outra forma em se sustentarem
não sobrevivem num esforço de imaginação
sorvem imperativamente do que cintila para poderem realizar-se

e quando o destino é nenhures
tendem a vibrar no éter até que o naufrágio acabe
seja dando à costa de uma silhueta
seja em definhar pelo infinito e nem sequer constarem nos arquivos do universo

parece confuso
mas não é

imagine-se um grande amor
ou ele arde no desvario de dois corpos
ou fulmina sem correspondência
não se contenta com outra solução

ou contemple-se a arte
ela rasga pela alma até sangrar
ou esvai-se ainda antes de sequer ter nascido
e assim é como se nunca tivesse sido

não sei se me explico
mas o que importa
mais do que ser claro ou cair no conforto de quem poderá escutar
é a inevitabilidade do que acontece quando nos apercebemos de que há mais mundo no mundo

uma sombra ocasional
delineada para lá dela
transmutada em poesia ou em anseio
a lutar desesperadamente pelas fronteiras que lhe calharam
dependendo da boa vontade das palavras da voz que as dita e das vozes que as leem

frágil
em perigo de se ser insignificante
e pior ainda
de ser esquecida no meio de tudo isto

há sempre
em tudo
do mais fundamental
ou mais descartável
um alento de uma força incomensurável
como se cada coisa ou cada tudo ou cada nada
ao calhar de ir sendo
ganhasse um espírito próprio e indomável de sobrevivência

e mesmo desaparecendo ou morrendo
luta até para lá dela própria e até ao último sopro
com a loucura de um maníaco que saliva e sangra até ao esgotamento
dure ele uma eternidade ou instante fugaz

tudo
por fim
acaba por reverberar nos silêncios mais profundos


Ontem, Praça dos Leões, Porto, outubro de 2026

dia 284 - desempossado

quando entrou
todos pararam de falar

era alto
e estava por trás de uns óculos de sol cujas lentes eram de um breu extremo

aos poucos cada um regressou às conversas e bebidas
enquanto ele se foi sentando num canto

a noite toda
os olhos ficaram escondidos
e em silêncio ia emborcando um copo de cada vez

parecia esperar alguém

mais tarde
viemos a saber que esperava por ele próprio

pelos vistos
uns dias antes
tinha acordado desencontrado de si mesmo

ao olhar-se ao espelho deixara de se reconhecer
mas compreendera de imediato que era algo momentâneo
que mais cedo ou mais tarde voltaria a ele

encarou esse hiato como uma simples suspensão da consciência
restava-lhe o corpo
manteria a carcaça até o hóspede regressar

por isso escolhera uns óculos opacos
para que ninguém se perdesse nesses poços sem fim que eram os olhos

vagueou pela cidade até ao café onde estávamos
e aí ficou a beber e à espera

se chegou a reencontrar-se nunca se soube
mas havia o rumor de que em momento algum duvidou
que enquanto esteve vazio manteve a calma de uma pedra

havia quem achasse que era tudo mentira
que usava essa história para esconder a loucura
que se enganava a ele mesmo só para poder simular um abandono
e assim evitar a todo o custo o confronto com os remorsos

desempossado de si
ia indo até o verbo se esgotar e o caminho esvair para lá do longe

não saberíamos se um dia o corpo voltaria a ser ocupado
ou se tudo fora uma quimera

há quem diga até
que nós
os que o vimos entrar e beber até ser dia
éramos fruto da sua imaginação
que um médico o diagnosticara horas antes
que sofria alucinações

não tínhamos como refutar
nenhum de nós tinha nome e nenhum de nós tinha memória
não havia por onde sustentar uma revolta

se calhar
nas contas finais disto tudo
pode ser que sejamos
nós e ele
um simples remendo poético numa madrugada mais


São Miguel, Açores, junho de 2017

dia 283 - postumamente

ultimamente tem havido um atraso
como se as palavras chegassem só após serem ditas

e o que diziam era já antanho

o mundo tinha acontecido
e só depois é que revelava

ele tornava-se assim uma testemunha póstuma do universo

o tempo acabaria antes de ser medido por inteiro

esse lugar era de uma solidão extrema
como as grandes ruínas de eras tão antigas que o pó nem cor tinha

no fundo
vivia rodeado de fantasmas
de vestígios e de cicatrizes

os segredos codificados do passado
pareciam empilhar ainda mais demora
e o tempo tornava-se tão denso que implodia sob o próprio peso

ele era o arqueólogo da própria vida
o que sentia via e provava
chegava-lhe já tarde
e por onde se movia já tudo o resto tinha escapado

os outros iam já para lá de um horizonte
enquanto que ele estagnava num planície sem cheiro nem raízes

no entanto
provavelmente
outros haveria num adiamento ainda maior

quem sabe se para trás dele mesmo
os silêncios se alongavam ainda mais
e nessa mudez profunda
haveria quem o imaginasse menos sozinho

talvez andemos todos desfasados do presente
talvez ele nem exista
ou existindo acaba por ser inconcebível

o agora será uma ilusão
o instante será o milagre inalcançável dos deuses

ele perdia-se nestas coisas
e com certeza eram elas que o atracavam nesse lugar desalentado

talvez sonhasse
e no sono o labirinto era um infinito sem saída

e quanto mais buscasse o escape
mais enredado estaria
até que ao acordar
fosse ele também o ditado de uma vida obsoleta


Foz do Douro, outubro de 2025

dia 282 - decapitação

tudo
nada

estas duas imensidões
intermitentes em duelo

e eles
no meio
a ver de que é feito esse lugar sem nome
a tentar pegar-lhe com as mãos e levá-lo à boca para descobrir um sabor

e não há como fugirem à espera de que chegue um quando outro se vai
esse tudo e esse nada

entre eles
não existe propriamente o meio termo
o que há é inominável mas igualmente inevitável

tanto é
que ambos se olham até deixarem de ser ver
como quando o sol entra pela vista e a encandeia num repente
e tanto é
que enquanto esperam há um silêncio a uivar num sopro que não acaba nem de nascer nem de morrer

tudo
nada
e o resto

e o resto não é uma sobra
não é uma ruína nem vestígio

é um alento mais na textura das coisas
é tempo dentro do tempo
e espaço para lá do espaço
um exagero da existência a pulsar por entre os corações escondidos

já o disseram uma vez
ao lado de um assombro
caminha um prazo que se definha

há uma beleza particular naquilo que é efémero
como aquelas promessas que nunca se cumprem
que se acumulam nos arrependimentos até serem esquecidas à superfície e mais tarde declamadas nas catacumbas da alma

eles sabem
os dois
que o que vai e vem 
entre tudo e nada
é um pêndulo feito guilhotina

a lâmina fende o horizonte destas coisas
aflorando resvés ou escapando ao largo

um dia
ou uma tarde
ou uma noite

o arco dessa elipse endoidecida
invariavelmente
decapita a poesia
mas nunca os versos

como as árvores
os poemas
morrem de pé


Miradouro da Caldeira, Faial, Açores, outubro de 2020

dia 281 - absurdidade

ela disse-lhe
olhando-o nos olhos

o meu desejo
era termos ficado presos no que me lembro

naquele verão onde no fim de mais um dia
o meu e o teu corpo
repletos de sol e de sal
descansavam juntos
desencontrando-se somente no ir buscar uma bebida mais
e voltando a reencontrar-se com a outra sede por saciar

ele ficou em silêncio 
nunca vira a mulher que lhe falava

teria de tomar uma decisão 

ou desmascarar a situação 
ou inventar um passado

ela esperava por uma reação 
e nas esperas há tempo para acontecer tudo
e até ele desfazer a indecisão 
esse tudo foi acontecendo 
como se o impossível de repente 
se cumprisse de uma só vez 

estas coisas parecem confusas
mas na verdade são simples

a loucura de um é sempre uma desculpa para a sensatez de outro
e no equilíbrio das almas nunca nada se perde e tudo acaba por ecoar e reverberar

ele decidiu por fim inventar o tal passado
e deu-lhe a mão e concordou

sim
teria sido bom ficar nessa lembrança

e ela
surpresa e quase assustada
retirou a mão e pareceu não entender

afinal
nas contas dos devaneios 
era ela agora que não o reconhecia
e encarava então que decisão tomar 

desmascarar o incómodo 
ou inventar um futuro

e nesta indefinição
quer dela quer dele
tanto no que decidir
como em que papel desempenhar

foram ambos ficando até não sobrar nada mais
que não um ténue vestígio de uma absurdidade


 “Black&White”, obra de Mr. Dheo, Universidade Católica, Foz do Douro, Porto, janeiro de 2026


dia 280 - outubro

vale tudo
deixemos correr

as folhas que secam agora
depois de terem passado um verão a engolir sol
vão-se desprendendo delas mesmas
num último grito de vida

aguardam a queda lenta nas brisas do outono
planando pelo infinito dos tons de ocre
nos desenhos de um voo aos esses
como um pêndulo em desvario
ora vão ora vêm
forçando ângulos como as espadas dos samurais no antanho a simular desmembramentos
até por fim a decapitação derradeira no chão silencioso

e é esperar que um passo distraído as calque
as estale no crepitar definitivo

uma poderá encostar-se num canto de jardim
quem sabe se um leitor em busca de um marcador a colha
para depois a depositar entre as páginas de um livro ilegível

no futuro
daqui a mil noites
após um mergulho suado sob uma lua exagerada
um corpo cheio de sede se precipite numa garrafa de rum
e a meio da madrugada e a meio da garrafa
numa mala perdida um livro de poesia se revele à mão

e aí
no meio de dois versos ou três
uma folha outonal esquecida desde então
furada pela fome de formigas e devorada em parte pelo tempo que passou
deixe entrever as letras que falem as verdades desejadas

e o ébrio
por entre um desmaio ou outro
declama uma outra poesia numa língua ainda por inventar

o outono sentencia as promessas
mas não deixa de o fazer com a cerimónia devida

ele respeita a cadência das esperas
e contempla a beleza da quietude

os ocasos demoram-se até desistirem
os anseios cumprem-se até desmoronarem sob o peso de tudo o que não acontece

outubro é o mês de todos os fins
o inverno só existe porque alguém acabou com o mundo antes


Noite na Quinta dos Malvedos, Douro, junho de 2026

dia 279 - lágrima

a lágrima apareceu
não era fruto de uma mágoa
mas de um vento de poeira repentino

seguiu o caminho clássico
do canto do olho até meio da face
e depois
sob a ilusão do próprio peso despenhou-se
desaparecendo para lá da sombra que cobria o chão

na verdade
o sentido da queda é um ponto de vista referencial

a lágrima caiu ao chão
tanto quanto o chão caiu à lágrima

no universo
qualquer medição tem de estar forçosamente atracada a uma referência

por isso
quem sabe
se visto de outro lugar
se não é o chão que vertiginosamente se precipita até à lágrima
seguindo-a até mesmo antes dela ter brotado
passando para lá da razão imediata de um incómodo nos olhos
e indo até ao brotar original de qualquer pranto

não era fruto de uma mágoa dizia eu no início
mas talvez fosse
provavelmente seria
nem que tivesse chegado com o atraso de um desgosto ou de um luto
um repentino revelar de saudade que nem sabíamos ter sentido

as emoções não têm prazo
elas fulminam
e basta um instante para que cintilem
seja uma areia a irritar uma pupila
seja um trago na garganta que nos engasga sem aviso
seja uma verdade atirada à cara

estas coisas não são para se saberem
são somente para acontecerem

e ao contar tudo isto
quando a noite já é profunda e o amanhã espreita
resta pouco que não seja esfregar os olhos
inspirar fundo e concluir

a escrita
parece-me
sobretudo a cada dia que passa nesta loucura em que mergulhei
que não é propriamente um caminho para se ter certezas

se são certezas que procuras
então não escrevas

ouço-me a dizer estas palavras
como que ditadas por um outro

pouco importa

a lágrima sumiu
falta saber se desterrada para lá dela mesma
ou se engolida pelo solo escuro do desconhecido 


Obra de Susanna Fritscher, "Apenas com ar, com luz e com tempo", Musée d'arts de Nantes, Nantes, França, outubro de 2017

dia 278 - porquê e como

deixa estar
podes ver que as flores aguentam-se bem mais tempo do que aquilo que pensavas

e o peso das perguntas não é todo igual
seja um

como

ou seja um

porquê

tu és mais uma pessoa do porquê
que é uma pergunta que vai mais fundo
que busca nas razões a explicação

eu sou mais do como
que é uma questão mais pragmática e intuitiva
que busca a forma como resposta

talvez seja o que separe um psicólogo de um detetive

e com o que temos pela frente
talvez ambos os caminhos se justifiquem
e no fim possamos comparar os resultados

o porquê terá origem nos segredos mais bem guardados
o como tanto nasce de uma ideia como de um improviso

e se esquecermos as flores por agora
e pensarmos no amor por exemplo
o porquê não tem solução e o como é um mapa incompleto

atentemos à alma
ao que cavalga até não haver mais chão
e ainda assim prossegue
como se o ímpeto vencesse qualquer atrito

ou contemplemos a poesia
cujo porquê é indecifrável e o como um atabalhoamento de cada um

ou
por fim
consideremos as noites em que os nossos corpos passam lado a lado
onde o como parece bastante óbvio e o porquê uma necessidade

há nestas coisas
um jogo que não acaba
um lance por dar após tantos outros terem sido dados no tabuleiro da vida

e na verdade
ninguém ganha nem ninguém perde
todos se questionam perpetuamente

é disso mesmo que os infinitos são feitos
de interrogações

e a diferença entre uma dúvida e uma interrogação
é que a última é órfã
e a primeira nunca sabe quem são os pais

as flores aguentam-se
e tu segues com os teus porquês
eu debruço-me para lá de mim nos meus comos


Vaso de flores de um casamento de amigos, Foz do Douro, outubro de 2016

dia 277 - domingo

por vezes
quando há silêncio
e o mar parece um lençol cansado com leves dobras da orla ao horizonte
surge um barco solitário

seria fácil rumar pelos versos e ir até lá
fazer as perguntas difíceis sobre a vida e a morte
ou inquerir sobre os ventos e o que é preciso para que um barco navegue
sentir as correntes passarem sob o casco
sondar a textura da água
que tipo de azul reflete ou o porquê de o fundo estar para lá do opaco
se a bordo há dúvidas ou certezas
ou se ambas duelam até uma espécie de decisão surgir sobre o que fazer a seguir

seria fácil
mas é em terra que vamos estando
ancorados a nós mesmos
enraizados para lá de nós até

e apesar de o olhar se escapar indomável
há tudo o resto que se nos atraca

um tridente de luz aguarda que chegue a noite para alumiar
fará de farol para quem esteja ainda ao largo
mas não sabe que é para os que estão em terra que fala
e o que diz varia consoante as estações

há um conforto que transmitem os lampiões a quem decide errar pelas madrugadas
sejam eles os loucos os ébrios ou os poetas
e na mudez que revelam durante o dia
vão empilhando os segredos que suspiram depois após o ocaso

o barco segue o rumo
seja ele qual for
e o mar continua num engilhamento perpétuo de si mesmo
como que a debater-se com o horizonte inamovível
e o céu
que uiva em azul
deixa o tal escape sideral do olhar lançar-se sem freio

tudo serve de desculpa para se escrever uns versos mais
seja porque há lugar para que palavras se ditem
ou porque elas próprias brotam do que surge assim num repente

há uma inevitabilidade em tudo isto
até porque o barco já sumiu
e o dia corre lento
como domingo que é


hoje, Foz do Douro, outubro de 2026

dia 276 - seguia de perto

seguia de perto os outros
ouvia-os a conversar
mas o que diziam chegava aos soluços
não era fácil perceber exatamente de que falavam

intrigado fora atrás até eles desaparecerem numa casa velha
esperou na rua encostado a uma árvore

quando reapareceram
vinham em grupos de três
vestidos de fato preto e camisas brancas velhas
uma gravata de breu pendurada desde os pescoços

cada grupo foi por caminhos diferentes
em silêncio e decididos

horas depois
cada um voltou com mais uma pessoa
um vulto sem vontade a ser meio arrastado meio hipnotizado

e foram reentrando na casa antes de o sol morrer

o que fariam lá dentro não sabia
mas decidiu espreitar

o que viu foi cada um desses vultos sentados a escrever
os grupos de três em vigília em cada quarto

e durante horas
pelas sombras da madrugada
iam escrevendo e empilhando as folhas de lado
de vez em quando
um dos três recolhia os escritos e sumia ainda mais para dentro da moradia

regressou a casa antes do sol nascer
a fome e o sono obrigaram-no

voltaria depois
tentaria entender o que se passava

mas a rotina esperava-o
sedenta dele e do desperdício de tempo e vida que se habituara a devorar

e ele esquecera esse devaneio
reentrara no lento passar dos dias
distraído com as urgências habituais
chegou até esquecer onde ficava a dita casa

mas num sonho mais tarde
numa daquelas sestas inesperada que por vezes o invadia
as palavras que ouvira entre aqueles homens e que tanto o intrigaram
revelaram-se-lhe sem cortes nem interferência

um deles falava para os outros e dizia

o fumo que sobe da vela que arde
que se ergue até desvanecer por completo nas alturas
deverá chegar aos céus e pedir desculpa
pela chama que lavra e lhe deu vida

acordou a meio da tarde com essas palavras ainda a ressoarem
e decidiu
nesse exato instante
que sairia de novo à procura dessa gente
que havia que esclarecer do que se tratava
que não era assunto para ficar sem resolução

ao fim de várias voltas pela cidade
lá encontrou a casa
parecia vazia
e esperou pela noite na esperança de os rever

em vão

a espera dura até hoje


Algures em Vila Nova de Gaia, fevereiro de 2018

dia 275 - corpo e alma

podemos sempre olhar as mãos de frente
apresentá-las aos nossos olhos
e mergulhar pelas falanges e sinas

há quem acredite que se ouve o mar quando as colocamos junto aos ouvidos
mas se calhar o que se ouve
é o murmúrio perpétuo do que está dentro

e dentro é tão obscuro que vai para lá do sangue e dos ossos e das vísceras

o pulso sente-se junto à jugular
mas também no punho ou lá longe num tornozelo pousado sobre o sofá

o peito vai e vem no respirar do repouso
e por vezes
um estalo entre as articulações crepita quando se ajeita o corpo

pelos vistos
esses estalidos
são a formação de uma cavitação interna
e o ruído que escapa é o igualar da pressão

pode perder-se uma eternidade a descobrir os caminhos da nossa carcaça
de saber que uma veia nas costas da mão
salta por entre nervos e cartilagens quando os dedos se movem
que uma dor antiga de futebol regressa de vez em quando ao adutor
que uma pálpebra é mais preguiçosa do que outra
que os joelhos não se tocam quando as pernas se juntam
que há um lugar nas costas
acima de um dos rins
que é uma perdição em certas horas

e outra eternidade mais pode perder-se a vasculhar os caminhos da alma
de saber que no fundo do fundo
o que sobra é a solidão sentada a ver o mundo
que as memórias são escolhidas por um acaso indomável
que as paixões antigas nunca se apagam e nunca se decidem
que as saudades dos que foram calam-se e esperam por uma distração para irromperem
que o primeiro beijo ainda recorda o veludo húmido de uma língua e lábios
que há vergonha e malícia aqui e ali nas encostas dessa profundeza
que há também um lugar
por entre o silêncio
que é uma igual perdição em certas horas

no fundo
a meio caminho
entre corpo e alma
a tal pressão por igualar aguarda
e o que vamos sendo anseia pelo momento em que se arrombem as portas
sejam as de um ou as da outra
para que se nos nivele o que se sente
seja pela vertigem que se nos atravessa o ventre ou o âmago
ou ambos


Obra de Sascha Schneider, "Emoção de dependência", Leopold Museum, Viena, Áustria, abril de 2022

dia 274 - ela e o velho

ainda não tinha vivido o suficiente
havia um vazio enorme a preencher adiante
ou pelo menos para tentar

sempre foi o mais importante
tentar
já lhe dizia o velho que passava o dia no café a mendigar bebida em troca de conselhos

ela crescera nos verões que passava pela frente dos homens sentados a beber
ouvia as conversas e apercebia-se de como exageravam em tudo o que contavam
e cedo também entendeu
de como esses homens
viviam através dessas exorbitâncias e desses excessos nos relatos

daí até compreender a natureza esquiva da mentira foi a vertigem de um passo em falso
um arrepio fulminante que num ápice se escapava para fora dela depois de lhe atravessar a alma

as narrativas revelavam-se poderosas
bem mais do que a força dos braços ou dos abusos físicos

eram as palavras encadeadas que dominavam os espíritos e os corpos

quando ganhou coragem
fez perguntas a esses homens
e as respostas que no início eram cheias deles mesmos
depressa se esvaziavam em vergonha e em algo vago e indefinido

só aquele velho parecia dizer coisas por inteiro

e hoje
muito graças ao que ouvira naquelas tardes intermináveis
sabia estar preparada para o que pudesse vir

que há coisas que nascem e outras que morrem
que as razões raramente importam
que é sobretudo o que arde ou ardeu que importa

porque o fogo de uma existência vale bem mais do que as cinzas que deixa para trás
vale pelas labaredas que singraram no meio das tempestades
que quase naufragaram de vez mas que ainda assim lavraram num resto de pavio

o velho disse-lhe uma vez

paga-me um copo
e eu conto-te como é que se abraça uma madrugada

e ela lá ouviu
e foi como se tivesse ido também por uma noite dentro
com os braços estendidos a procurar o caminho
tudo isso no meio de um breu tão cerrado que as próprias mãos se perdiam
e a noite tinha a textura de um tecido delicado
e o dia quando chegou um infinito depois
revelava-os a ambos
a ela e ao velho
como outros seres

parecia não haver vinho que chegasse no mundo para tudo o que o velho tinha para contar
e nela
ávida em lhe ouvir a voz
o mesma tipo de sede uivava por dentro até não haver mais lua no céu

paga-me outro copo
e eu digo-te o que fazer quando te apaixonares
mesmo se
chegada a altura
o ignorares

e lá lhe disse
e ela lá ouviu

reconheceu mais tarde o acerto do conselho
e de como o velho adivinhara que não o chegaria a seguir
porque o amor é uma rebeldia
é o esvaziar da sensatez até não sobrar razão que não seja um assombro

paga um último
vá lá
e eu conto-te um segredo que passará a ser teu

e ela lá pagou


"A Rapariga dos Gansos"(1978) de Samuel Buri, Basileia, Suiça, maio de 2016