dia 110 - aspiração

não se pense que é fácil
ir por aí até onde se pode
porque o caminho não acaba nunca

e ir até onde se pode será o limite

mas e ir para lá
pergunto

ninguém responde
porque para além de ninguém saber
não há sequer saber para revelar

sim
é um emaranhado cognitivo
uma impossibilidade a pulsar na permissa
como os paradoxos inquebráveis que aqui e ali se instalam no correr do tempo

mais do que o desconhecido
é pressentir que para além dele ainda há mais qualquer coisa
um lugar inominável e incomensurável
pois nem as palavras nem as medidas fazem sentido

vai-se até onde se pode e depois imagina-se onde se poderia ter ido
mas o que sobra ainda depois disso
não se nomeia nem se contempla

até a poesia começa a falhar quando se acerca dessas coordenadas

talvez o amor
talvez a gratidão
talvez a solidão e o silêncio

talvez essas coisas aflorem esse impossível
quem sabe se não são as manifestações de uma realidade que ainda estamos a aprender
quem sabe se quando se calam e apagam
este lado de cá se desmorona
pois nada se aguenta sem sustento

e talvez por isso
mesmo depois de se ter ido até onde se pôde
a alma humana acaba sempre por aspirar em ir mais além


Às portas do Saara, Tunísia, agosto de 2017

dia 109 - o dia dela

então
o dia dela
eu a vê-lo desde uma véspera em que não a conhecia sequer

uma ignorância órfã feita deserto
que acabou por esgotar-se na silhueta de luz que a revelou

um sol oblíquo a insistir no horizonte
a desenhá-la para lá de mim
tatuando-a num solstício que não acaba nunca

o dia dela
então
a pedir-me que lhe escreva
esquecendo que quando escrevo
seja o que for
contém sempre um eco que a busca e a anseia

o dia dela
a pedir-me que diga aos astros a razão de hoje estarem onde estão
de lhes lembrar que estariam eles num outro lugar não fosse hoje o dia que é
ou estando eles no mesmo lugar lhes faltaria o propósito
e é sabido
sem propósito não há órbita que se sustente

eu
sigo
torneio ao redor de uma juba de leoa
de um sotaque que me embala
no cetim de um língua
no suor partilhado
e no afago do amor


Rua da Torrinha, Porto em abril de 2024

dia 108 - reflexo

por vezes
o passado imiscui-se como um cavalo de tróia
conspirando no presente através de um reflexo inesperado
sabotando o futuro ao ditar lições difíceis de contradizer ou contrariar

o pretérito
na condição de ter já acontecido
esconde-se nessas cavernas de imutabilidade
mesmo quando a artilharia dos revisitadores bombardeia
ou o esquecimento se propaga irremediável

sobra sempre qualquer coisa
um lampejo do que já foi insiste incondicionalmente
revela-se
seja numa ameaça ou numa promessa
que se cumpra ou simplesmente paire até enlouquecer cronos

não podemos escapar ao que fomos
daí sermos o que somos
e nesta conjugação dos modos verbais
todo o universo dança numa coreografia inevitável

não é bem que o destino esteja traçado

é que o destino já aconteceu

e o reflexo afinal somos nós


Palácio do Bussaco, Luso, abril de 2023

dia 107 - o invejoso

acabava sempre por exagerar
e era já tarde demais quando confundia a bebida dela com um cigarro
e o desprezo dela com insinuação
e a mesa com a almofada desejada

mas ainda assim
sabia que amanhã lá estariam de novo
prontos a representar os seus papeis

ela falaria dela e ouviria pouco
ele ouviria metade e beberia muito

ainda se lembrava de como tudo começara
de como ela é que o tinha procurado
ele que já povoava as mesas solitárias do bar há anos

tinha-se sentado sem aviso uma noite
e começado a falar

eu sei que não me conhece
mas preciso de uma bebida e de desabafar

ele de facto não a conhecia
mas não se importara em ter companhia
e bebida não faltaria

assim foram repetindo o cenário
uma noite por semana no início
três ou quatro ao fim de alguns meses

uma ou outra vez tinham acabado na cama juntos
mas na maioria das vezes cada um regressava à própria solidão

nos momentos em que partilhavam a mesa
pelo menos procuravam que as solidões se anulassem
às vezes sim
cancelavam-se uma à outra e tinham onde pousar o olhar e um outro corpo para seduzir
às vezes dobravam
e quer eles quer o silêncio naufragavam no álcool e numa melancolia partilhada

o que é certo
é que eu
na minha mesa ainda mais isolada
ao espiá-los para lá de mim
tragava uma inveja cuja sede era impossível de matar
e não era por falta de tentativas


"A Fina e o Borracho", desenho de Álvaro Siza Vieira, 2008; 3ª Bienal Internacional de Arte de Gaia, Quinta da Fiação, Lever, Vila nova de Gaia, abril de 2019

dia 106 - embuste

ele falava para os que o rodeavam

existem noites tão escuras
que nem as próprias mãos conseguimos ver
elas não passam de um contorno de penumbra distante

imaginem então o que fica para lá delas nesse poço noturno

uma praia cuja língua parece não ter fim
uma cordilheira enrugada de pequenas covas cujo padrão esconde um código por decifrar
da orla ao horizonte
mar e céu fatiados por várias camadas de nuvens

enfim
para lá das mãos encobertas por essas noites de breu
cabe tudo isso e muito mais
incluindo um embuste

enquanto dizia estas coisas
os outros olhavam-se e procuravam entender

tinham-se juntado à volta dele com diferentes motivações
uns curiosos outros sedentos de sangue outros sedentos de companhia
nenhum saiu satisfeito quando as palavras acabaram e ele se esfumou de repente

o silêncio e a desilusão também se foram dissipando pela tarde
haveria um outro a falar num lugar mais à frente
era sempre assim
os loucos nunca se esgotam
e menos ainda o público que atraem

mais cedo ou mais tarde
será noite
e para lá dela
cada um semeia o que quiser


ps - Praia da Calheta, Ilha de Porto Santo, julho de 2022

dia 105 - vulcão

ao fundo
um vulcão

sobre ele
debruçadas e empilhadas
nuvens que iam passando deixaram de passar
acumularam-se sobre a goela adormecida
erguendo uma parede de neblina branca

com o tempo
confundia-se já
seriam as nuvens ou fumaça de erupção a avançar sobre a cidade
preparando-se para cobrir do céu ao chão o mundo inteiro

talvez se rebobine a existência
e essas nuvens que pareciam atravessar o firmamento
viajam afinal de volta à origem
reencontrando o caminho da cratera
entrando pela caldeira até mergulhar nos confins da terra
e quem sabe se mais tarde
não será a vez dos edifícios e do nosso olhar retornar à fornalha inicial
sugados por uma implosão temporal
como se os deuses quisessem tentar de novo

nisto da criação
é fácil de imaginar cair-se no vício de voltar atrás
o arrependimento não poupa ninguém

e quem nunca
pelo menos uma vez na vida
não se sentiu tentado em cometer
sem tirar nem pôr
os mesmo erros
ainda que disfarçando a intenção

ao fundo
um vulcão

falta saber qual ao fundo é aqui referido
se o de lá
ou o de cá


ps - Via Etna, Catania, Sicília, Itália, agosto de 2016

dia 104 - urbehumano

quando o ouviu dizer as coisas que disse
pareceram-lhe sopros a reverberar de uma carcaça
como se a voz viesse de um outro lado

à volta
o mundo ia seguindo
sorvendo o tempo
desinteressado em saber que as palavras vão sustendo a realidade

o que acontecia ia nascendo no olhar
como o sol ou a lua o fazem quando calha de se enquadrarem na janela
as vidas de cada um cruzavam-se num lugar camaleónico
ora entrada ora saída ora nascente ora poente

o que sobrava no final do dia
era uma promessa renovada de que amanhã seria outro dia
mas até lá chegar houve que atravessar uma existência inteira

do que ouviu
dessa fala
já não se recorda senão o som velho do que nem é já memória
mas o labirinto caótico dos espíritos que galgavam numa euforia contida
ainda hoje se tatua na lembrança

cada corpo com o caminho traçado numa certeza desconhecida
uma urgência em ir sem se saber de onde se veio
um imediatismo tão intenso
que fulminavam no presente como os relâmpagos nas noites de tempestade
uns após os outros até o temporal se cansar

hoje
à distância de um esquecimento
esse burburinho urbehumano ainda ecoa
nem que seja atabalhoadamente nuns versos quaisquer


ps - Mercado Municipal, São Paulo, Brasil, maio de 2018

dia 103 - e ele nem era poeta

ficava acordado a espreitar as luzes dos apartamentos a insistir na madrugada
eram quase sempre as mesmas
e de vez em quando
umas outras que só raramente iam luzindo a horas tardias

também se dedicava a acompanhar as sombras
ia espiando-as
vendo-as esticarem-se até ao ocaso as engolir numa penumbra indiferente

outras vezes
passava horas ao espelho com um único propósito
esperar que o próprio reflexo desaparecesse
e assim assistir ao despenhar do infinito nos dois sentidos sem o obstáculo dele a existir no meio

é que o tempo tropeça em nós
como uma pedra que cai num rio
ou uma lomba no final de uma descida

estas coisas definem o universo
as manias
as cismas
os devaneios
as exceções

os versos que sobrevivem
enquanto tantos outros nascem e morrem num instante
uns porque hesitam
outros porque não encontram as palavras que os sustentem

e ele nem era poeta
calhava de estar por ali
de ter estado por ali
de ir estando por ali
de vir a estar por ali


ps - Foz do Douro, Porto, outubro de 2025

dia 102 - amanhecer

começar por um silêncio
sobrevoar um sono alheio pelos desfiladeiros da manhã

a luz a entrar como um relâmpago que não acaba
e o dia inteiro a estender-se lá fora onde o mundo acontece

o quarto resiste ainda
agarra-se às silhuetas da véspera
às roupas que por lá ficaram
ao sabor dos teus lábios
aos sonhos que se consomem num esquecimento cheio de pressa
a preguiça a retesar-se pelo corpo até ser expelida numa neblina invisível

a língua a pedir água e os olhos a habituarem-se ao agora

acordar e reaprender tudo de novo
reconhecer-se ao espelho
voltar a vestir a pele que ficou no ontem
medir o olhar e o alcance das mãos

e onde se começou por um silêncio
há que voltar a saber ouvir
por isso é que muitas vezes
depois do automático bom dia
nunca ouvimos à primeira o que nos dizem depois

muitas manhãs começam com uma pergunta

diz


ps - "desfeitahenge", a duo centésima vigésima sétima "cama desfeita", Porto, agosto de 2022

dia 101 - predestinados

talvez estrague a história dizer que no fim nada muda
mas quem sabe se é verdade uma conclusão antes do tempo

este novo início estende-se por um outro infinito
há todo um deserto por cobrir com palavras
e elas esperam algures
ou se não esperam hão de surgir de um nada sem nome

é sempre assim
não só quando por um acaso o caminho parece ser outro
como num novo amor depois de um que se estilhaçou
ou numa esperança quando as portas da escapatória se fecharam

o que não falta é eternidade para que as coisas aconteçam
até mesmo para que as que já aconteceram antes voltarem a acontecer outra vez

sim
há nuances
originalidades
mas nada é realmente novo
e o que parece ser novo é tão só fruto de um esquecimento

que diferença faz
se uma coisa já foi ou se voltou a ser
se não há memória de que já tenha sido

os labirintos da alma estão ligados pela intuição de que tudo já aconteceu
ou
quando muito
de que o que acontece tinha forçosamente de acontecer

talvez sejamos filhos de um destino
ou órfãos de um propósito
não interessa

sobra sempre o que é inevitável
sermos nós mesmos e não um outro


ps - fronteira entre o Pernambuco e a Paraíba, Brasil, maio de 2018

dia 100 - sal cinza e poeira

havia um vento em permanência
meio norte
não demasiado mas não tão pouco também

era uma lembrança a insistir
de que à volta
havia mar
e de que por dentro
havia fogo

que se o mar parecia imenso
já o fogo nem fim parecia ter

de dentro
a espaços
a terra soluçou e despejou mais mundo no mundo
escorreu em pedra líquida que depois estagnou em basalto
seguindo curvas e contracurvas e o rumo lento mas decidido da gravidade

pela pele dessa ilha
rugas mais antigas ao lado de lisuras mais recentes
o que a sina dessas mãos telúricas contava
eram epopeias feitas de mitos e lendas e deuses mais velhos que a noite e o dia

por fora
ao longe
quando o vento chegava de leste
trazia a calima africana
as areias finas do deserto que iam chovendo
qual bruma seca de sal cinza e poeira que levantava uma sede de loucos
quem sabe se não foi isso que levou a que até vinhas se plantassem por entre o pó queimado
em covas ovais protegidas das brisas para colher sol o ano todo

à noite
os sons eram engolidos pelas crateras e cavernas
o silêncio emanava do próprio solo
com ritmos que vibravam pelo ar estremecendo até ás estrelas lá no alto

e então
era quando regressavam as sombras de antanho
ora piratas e corsários ora marinheiros ou náufragos
que pela madrugada fora
bebiam cantavam
e uivavam
até a lua não caber mais no céu


ps - Ilha de Lanzarote, agosto de 2015

dia 99 - simultaneidade

ao ver
trouxe do que viu algo que não existia neste mundo
como se o ato de olhar por si só forjasse o inalcançável

os ventos que sopram pela solidão
correm até não haver mais por onde resvalarem
e deste lado
os ecos do que dizem são sempre inéditos
pois cada um é único e inimitável

o que é comum é o assombro
o instante em que se nos falham os sentidos e a alma parece elevar-se do corpo

ao ver
aumentou o próprio tecido da existência
qual deus a encontrar um lampejo de criação
e num instante inicial tudo e nada são possíveis
até que aos poucos se vão aniquilando um ao outro
como partículas de carga oposta

no fim dessa dança probabilística
costuma sobrar um pedaço do tudo
só que por vezes
quando o acaso se lembra
muito raramente
o que fica acaba por ser um pedaço do nada
e aí
nesse milagre
o que é real e irreal manifestam-se em simultâneo


ps - "Jovem Mulher na Paisagem (Estudo para ‘Remendadoras de Redes), obra de Max Liebermann, Leopold Museum, Viena, Áustria, abril de 2022

dia 98 - em tortura

se não puderes ser livre
sê um mistério
Rita Dove

apesar das ameaças e da execução de algumas delas
nunca se rendeu à primeira
e mesmo quando concedeu
deixava sempre um pedaço de dúvida nos carrascos
como uma pequena pedra chata no sapato da imposição

ia resistindo furtivamente às torturas e aos castigos
sabia que pelo menos lhe sobrava uma réstia de desdém que era invencível

o calvário teria um fim
nem que fosse também coincidir com o dele mais à frente
mas até lá havia que caminhar pela agonia e suas cambiantes

não se recordava bem de como tinha chegado ali
mas também já não importava
aprendera rapidamente que o presente só existe quando é a dor que o domina
o passado e até o futuro
só ganham forma quando não existe sofrimento

nada existe no agora a não ser o incêndio de uma aflição
os entretantos ou naufragam no pretérito ou esvoaçam pela miragem do porvir


ps - Palacio del Marqués de Dos Aguas, Valência, Espanha, julho de 2019

dia 97 - esboço de lenda

e vieste a meio da noite
quando o lugar já não te esperava

ainda assim projetaste a sombra no corredor silencioso
ao fundo a porta do elevador órfã
os quartos fechados a fazerem guarda de honra ao teu percurso sonâmbulo

tudo isto foi visto nas câmaras de segurança
na manhã seguinte pelas autoridades

quando a tua silhueta desapareceu de repente
um suspiro de susto e depois de desconfiança abalou o pequeno escritório

ninguém desvanece do nada
provavelmente a transmissão falhou
uma interferência qualquer

não sabiam eles
que sempre foste um fantasma
que eras feita de éter e composta de ideia
que a tua substância se rege por outras leis que não as nossas

voltaste a aparecer muito tempo depois
já eu não estava por cá nem mais ninguém te procurava

vieste a meio da noite e o mundo tinha esquecido
sobrava uma subtil solidão à qual juntaste a tua
e dessa soma uma mudez cobriu tudo

nestas coisas de aparições e desaparecimentos
nunca se sabe bem o que sobrevive
talvez uns versos e um esboço de lenda

há sempre alguém que fica com os restos
que se alimenta de resíduos e vive para lá dos mil anos
que deambula pelas esquinas dos mitos


ps - Leonardo Hotel Savoy, Roterdão, Países-Baixos, março 2019

dia 96 - chamamento

dizem alguns rumores
que existe um vento que morde
que faz com que marinheiros se lancem dos navios e se joguem às ondas
e que no meio delas ficam a olhar o céu até que cada estrela se eclipse e a noite se extinga de vez

nos portos e em terra
não faltam sonhadores
e gente cheia de uma coragem nunca testada

o vinho corre e os corpos viajam por outros corpos
trocam-se mentiras e segredos
cumprem-se promessas e quebram-se outras
mas as luzes do farol palpitam e vão segurando o mundo no lugar

é fácil falar de correntes e travessias quando os pés estão secos
é fácil pintar o horizonte e a espuma das vagas a espraiarem-se pelas areias silenciosas
é fácil escrever sobre tempestades e ondas que desabam de tão alto que parecem vindas do céu 

mas o que é difícil na verdade
não tem como se contar
é de uma língua feita de sal e de solidão
é um vínculo pré-histórico dos inícios da vida com o mar
um atordoamento face ao infinito
um chamamento ao princípio
porque já se deu a volta e se passou o próprio fim


ps - Farol da Barra de Aveiro, Gafanha da Nazaré, abril de 2021

dia 95 - amnésia

dessa vez
e só dessa vez
ele contou o que tinha acontecido
ouvimos enquanto a noite passava do lado de fora

eu tinha saído de casa sem saber bem para onde ia
e quando me apercebi
tinha dado a volta ao mundo
ou ao bairro
não sei bem

foi assim que começou
e até acabar falou quase sem perder o fôlego

o que disse ficou perdido algures onde não vale a pena vasculhar
o dia haveria de nascer e o horizonte estaria no lugar de sempre

mas antes de acabar olhou cada um de nós nos olhos e rematou

quando se lembrarem desta história
não se esqueçam do que realmente importa

valeu de pouco
hoje
à distância de uma memória que se esfuma
não resta nem lição de moral nem os acontecimentos dessa volta

mas quem sabe se não é isso que realmente importa
uma inexistência
um apagamento da realidade
como os deuses que reescrevem a história

amnésicos por escolha
reis e senhores desses lugares de silêncio


ps - Foz do Douro, Porto, fevereiro 2025

dia 94 - depois

o que acontece depois
ninguém sabe ao certo

depois do último traço e um ou dois passos de recuo
de um pequeno assombro quando calha de se ter descoberto o que ainda não existia

mas e depois de tudo isso pergunto

é o silêncio que cai ou o desassossego de novo a imiscuir-se

poder-se-á ter ganho um pouco de tempo dentro do tempo
ou a vertigem não descansa e a queda não acaba

quem sabe se o artista não se esquece da própria sombra
a modelo não perde mesmo a cabeça
e a tela não se propela para lá dela mesma

quem sabe se nós
deste lado
sem ter tido de passar pela viagem da criação
não nos contentamos com essa ignorância

porque o que nos chega dos traços não pertence a cronos
a emoção que despertam é intemporal e move-se em coordenadas indecifráveis

o que acontece depois
no fundo
não se sabe
apenas é certo que não é mais o que acontecia antes
pois nem nós nem o mundo somos os mesmos


ps - " Tête de femme", Pablo Picasso, 1963, Museu Albertina, Viena, Áustria, abril de 2022

dia 93 - escape

não se sabe
mas parece provável
que no fim a entropia terá a última palavra
e que provavelmente não será sequer uma palavra
ou então
as letras estarão tão distantes que nem uma leitura será possível

parece inevitável que as coisas se dispersem
porque há demasiado para onde ir para que se fique nos lugares de sempre

deve ser isso
há um escape para cada coisa
e dentro de cada coisa outras coisinhas há que irão escapar
e assim sucessivamente

independentemente do que acharmos
não há como calar o rebelde que habita em cada pedaço do que aqui anda
ele vive numa espera calculada
sabe que isto não passa de um instante
o mar
as montanhas
as órbitas
os campos eletromagnéticos
os desejos e os beijos que nunca se chegaram dar

tudo isso
está preso ao tempo e ao espaço em que se move e acontece
tudo isso se consome até que as portas se abram e por elas tudo se desmorone e se precipite
escoando até que o universo seja um lugar feito de quase silêncio


ps - vista dos Alpes, voo Zurique-Porto, Abril de 2025

dia 92 - recolhimento

a cidade despejada lá fora
onde os ritmos têm vida própria e escapam ao silêncio

por aqui
uma formiga atravessa a página e quase segue o horizonte do verso
até que eu a leve à janela e a exile de vez do meu mundo

talvez vá por lá
por essas avenidas que não acabam nunca
onde o trânsito parece uma teimosia ensimesmada

eu espreito de vez em quando
seja pela varanda
seja em saídas esporádicas para ter a certeza que o mundo ainda existe

no meu recolhimento por vezes duvida-se
habituamo-nos de tal forma aos ecos abafados lá de fora
que eles se esfumam em surdez até o corpo pedir um ruído qualquer que reverbere por dentro

o jogo do alienamento não se fica por uma forma de se ser solitário
ele abre portas por onde correntes de um outro ar vão e vêm sem aviso
trazem para além de um ocasional arrepio
murmúrios que se assemelham a rezas e sons de uma língua estranha

por vezes
esses dois mundos fundem-se
misturam-se na fronteira que vou sendo
esse limite entre a cidade lá fora e o mundo que surge do meu isolamento

e esse limbo sou eu
desmascarado
enredado num caderno a chegar ao fim e onde não vai caber o que resta do infinito


ps - Avenida Paulista, São Paulo, Brasil, maio de 2018