a grande planície da alma
derramava tanto espaço
que não havia como não estar sozinho
o horizonte parecia mais longe do que o possível
era assim que explicava o que sentira quando se isolou um inverno inteiro
tinha recuado para lá das montanhas
escapado da rotina e das gentes
levou apenas ele mesmo com ele
e agora que voltou
não parece ter-se trazido
ou então
o que trouxe
é um outro ele
a voz o rosto as mãos
diferentes do que eram
transmutadas por um exílio onde os dias e noites lhes moldaram novas formas e nova aparência
poderá ser impressão
nestas coisas
quando o tempo já cavalgou e da terra pisada ergue-se o cheiro do olvido
é difícil saber
ou pode ser até
que quem tenha transmudado sejamos nós que cá ficámos
e as coisas e as gentes e o mundo
a perspectiva é decisiva na avaliação
há quem diga que um quadro torto numa parede
pode muito bem estar direito
e que é o quarto inteiro que inclinou
enfim
é inevitável cair nestes ilogismos toda a vez que ele regressa
o absurdo de o ouvirmos
de partirmos com ele de alguma forma por esses desfiladeiros
de escalarmos os montes cuja neve tem séculos
de tocarmos as nuvens
e depois de voltar com ele num corpo estranho e num olhar novo
mesmo agora
em que ele
sentado a contar tudo isso
dá para notar que ele próprio se estranha
que timidamente vai-se conhecendo
surpreso até em descobrir rugas que não estavam na face antes
confuso com o timbre do que vozeia quando a emoção aperta
pasmado com os lanhos fundos nas palmas das mãos como se as sinas tivessem mergulhado para dentro da pele
ele concluiu que retornar era na verdade uma impossibilidade
que voltar era uma ilusão
que nada nunca é o que alguma vez já foi
a inocência é irrecuperável
e um erro e um crime
por muito que se repitam
não falam a mesma língua nem coalham o mesmo sangue
quando se calou
e com ele também nós todos
sabia-se que voltaria a partir
que hibernaria dele mesmo de nós e de tudo
nunca mais o veríamos
da próxima vez
ele e nós
seríamos outros
Lago de Zurique e os Alpes ao largo, Suiça, maio de 2016









