ela gostava
e ele não se importava
dito assim
não fica claro quem partilhava os relatos oníricos
se ela
se ele
e também não se resolvia o enigma
se ela gostava de ouvir ou de os contar
ou se ele não se importava de os contar ou de a ouvir a ela e a voz hipnótica que propalava
o impasse permanece
o que se sabe é que dessas partilhas
sobravam palavras pantanosas
que ao mesmo tempo revelavam texturas de lodo e húmidas
como cores a demorarem-se em tonalidades impossíveis
havia um lago que ensaiava o milagre de ser real
ele que era apenas descrito na confissão do que um deles parecia testemunhar no sono
terá sido um quadro que um ou ambos viram em tempos
e se calhar
o que um sonhou o outro acabou por reconhecer
depois ela gostou e ele não se importou
ou ele não se importou primeiro para ela gostar depois
nem sempre sei o que acontece a estes seres que se me vão aparecendo
e destes dois
parece que ainda menos sei
como se em dueto se protegessem da minha intromissão
negando-se a revelar mais do que aquilo que consegui no início
e esse pouco
apenas vazou porque os apanhei de surpresa
ninguém espera que um curioso apareça do nada
e que com os olhos indague e se imiscua por entre os silêncios e as falas que tanto ela e ele prezam
por muito que eu tente
ambos permanecem inacessíveis
vultos ao largo do meu alcance
absortos na observação desse lago irreal
e eu
por aqui
do outro lado
a hesitar entre um aceno ou um espiar dissimulado de como quem não se apercebe
eles lá vão estando
tecendo os seus dramas
excluindo-me desse mundo
esquecendo-me até para lá do que é concreto
no verdade
talvez tanto eles como eu
acabámos de desmergulhar desse lago impressionista
e dos nossos corpos
para além das cores também as almas vão escorrendo em emoção

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