dia 287 - impressionistas

contava-lhe os sonhos
ela gostava
e ele não se importava

dito assim
não fica claro quem partilhava os relatos oníricos
se ela
se ele

e também não se resolvia o enigma
se ela gostava de ouvir ou de os contar
ou se ele não se importava de os contar ou de a ouvir a ela e a voz hipnótica que propalava

o impasse permanece

o que se sabe é que dessas partilhas
sobravam palavras pantanosas
que ao mesmo tempo revelavam texturas de lodo e húmidas
como cores a demorarem-se em tonalidades impossíveis

havia um lago que ensaiava o milagre de ser real
ele que era apenas descrito na confissão do que um deles parecia testemunhar no sono

terá sido um quadro que um ou ambos viram em tempos
e se calhar
o que um sonhou o outro acabou por reconhecer

depois ela gostou e ele não se importou
ou ele não se importou primeiro para ela gostar depois

nem sempre sei o que acontece a estes seres que se me vão aparecendo
e destes dois
parece que ainda menos sei
como se em dueto se protegessem da minha intromissão
negando-se a revelar mais do que aquilo que consegui no início
e esse pouco
apenas vazou porque os apanhei de surpresa

ninguém espera que um curioso apareça do nada
e que com os olhos indague e se imiscua por entre os silêncios e as falas que tanto ela e ele prezam

por muito que eu tente
ambos permanecem inacessíveis
vultos ao largo do meu alcance
absortos na observação desse lago irreal

e eu
por aqui
do outro lado
a hesitar entre um aceno ou um espiar dissimulado de como quem não se apercebe

eles lá vão estando
tecendo os seus dramas
excluindo-me desse mundo
esquecendo-me até para lá do que é concreto

no verdade
talvez tanto eles como eu
acabámos de desmergulhar desse lago impressionista
e dos nossos corpos
para além das cores também as almas vão escorrendo em emoção


"Le Bassin aux Nymphéeas, le soir" de Claude Monet, Museu de Arte em Zurique, Suíça, abril de 2025

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