dia 285 - destinos

por vezes chega-se a um lugar
outras vezes não se chega a lugar nenhum

é certo que em ambos os casos há um percurso
e isso em si tem a sua importância

mas é no destino que se fazem as contas
é após a meta que tudo ganha contorno e onde o passado se revela

e aí
no fim
o que está para trás pode finalmente ser real

fica
no entanto
dependente dessa chegada
do chão ou da falta dele

como as sombras que necessariamente precisam de luz para engolir
e então se desenharem no vulto definido da sua existência

não há outra forma em se sustentarem
não sobrevivem num esforço de imaginação
sorvem imperativamente do que cintila para poderem realizar-se

e quando o destino é nenhures
tendem a vibrar no éter até que o naufrágio acabe
seja dando à costa de uma silhueta
seja em definhar pelo infinito e nem sequer constarem nos arquivos do universo

parece confuso
mas não é

imagine-se um grande amor
ou ele arde no desvario de dois corpos
ou fulmina sem correspondência
não se contenta com outra solução

ou contemple-se a arte
ela rasga pela alma até sangrar
ou esvai-se ainda antes de sequer ter nascido
e assim é como se nunca tivesse sido

não sei se me explico
mas o que importa
mais do que ser claro ou cair no conforto de quem poderá escutar
é a inevitabilidade do que acontece quando nos apercebemos de que há mais mundo no mundo

uma sombra ocasional
delineada para lá dela
transmutada em poesia ou em anseio
a lutar desesperadamente pelas fronteiras que lhe calharam
dependendo da boa vontade das palavras da voz que as dita e das vozes que as leem

frágil
em perigo de se ser insignificante
e pior ainda
de ser esquecida no meio de tudo isto

há sempre
em tudo
do mais fundamental
ou mais descartável
um alento de uma força incomensurável
como se cada coisa ou cada tudo ou cada nada
ao calhar de ir sendo
ganhasse um espírito próprio e indomável de sobrevivência

e mesmo desaparecendo ou morrendo
luta até para lá dela própria e até ao último sopro
com a loucura de um maníaco que saliva e sangra até ao esgotamento
dure ele uma eternidade ou instante fugaz

tudo
por fim
acaba por reverberar nos silêncios mais profundos


Ontem, Praça dos Leões, Porto, outubro de 2026

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