dia 17 - ao vasculhar

ao vasculhar todas as coisas
deu-se conta que nem o presente nem o futuro se agarram

tudo é pretérito

no exato instante em que alguma coisa se gera
ela se afunda na torrente irrefreável do tempo

assim tudo é passado
e há nisso uma melancolia extrema
como se na verdade já tudo acontecera

mas curiosamente
perante essa evidência
algo acalenta uma esperança
um instinto desvairado que luta contra o inabalável
uma teimosia que se calhar
essa sim
é o que mais se aproxima de ser presente
que implode a cada segundo e que renasce no seguinte
e assim sucessivamente
sempre derrotada
mas sempre de regresso

e ao ser nem que seja uma centelha do agora
acaba por lançar a sua própria insignificante sombra no futuro

e assim
mesmo que presente e futuro não se agarrem
eles insistem e desistem para todo sempre


ps - Ilha de Porto Santo, Madeira, julho 2022

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