dia 20 - vinheta poética

pelo chão o caos de rascunhos e desenhos inacabados
a refeição por terminar
e uma série de teorias da conspiração penduradas pelas paredes
numa teia de recortes e fios e realces coloridos

por entre chávenas de café sujas e espalhadas pela mesa
um gato dormia numa poça de luz vinda da janela

a um canto um tabuleiro de xadrez a um passo de xeque-mate a favor das brancas
um chapéu de pernas para o ar no sofá
um revólver e uma bala 
uma corda com um laço e uma caixa de comprimidos
um cinzeiro meio cheio e um copo meio vazio

ele sentado num banco a ler
talvez um guião
talvez um livro de orações

um som de rádio abafado a vir do vizinho
o calor da tarde a vibrar por toda a sala

haveria uma decisão a tomar em breve
mas quem sabe se seria tomada

talvez hesitasse
e uma eternidade mais tarde
alguém o veria ao longe
já velho a regressar a casa com as compras


ps - Bruxelas, Estação Central, março 2019

dia 19 - despojos de um duelo

o lugar era perdido
o tempo passara em marés antigas
e o que sobrara era um esquecimento do qual somente um eco ainda teimava

mais do que um abandono
eram penumbras que habitavam o infinito

o velho que me contava o que acontecera
falava baixo e a medo

o duelo fora final
e no dia em que aconteceu
um caiu logo
o outro caiu mais tarde

o primeiro a golpe de navalha
o segundo a golpe de remorso

depois disso
o mundo ficou vazia

não me disse mais nada
nem quem tinham sido
nem o porquê do confronto

mas por todo o lado
as sombras ora pareciam manchas de sangue
ora suspiros de arrependimento

ps - Djerba, Tunísia, julho 2017

dia 18 - o tecido do universo

pode ser que desta vez o dia não entre pela janela
e o quarto tenha atracado na madrugada
um porto deserto de memória
onde os únicos vestígios são roupas espalhadas pelo chão
e uma almofada a mais esquecida na borda da cama

nas paredes uma ténue maré de sombras a jogar à preguiça e ao adiamento
a soluçar pelos traços dos quadros silenciosos

dois corpos adormecidos
um nas profundezas de um sonho
o outro abandonado após ter velado tudo isto

existe um rumor subtil num quarto dormente
que conta os segredos que importam
que nada existe
nem dentro nem para lá dos versos

a poesia vive numa lâmina
numa tangente cósmica da existência
que ora implode ora detona
e nesse propagar
seja para dentro
seja para fora
compõe o tecido do universo


ps - Lençóis Maranhenses, agosto 2025


dia 17 - ao vasculhar

ao vasculhar todas as coisas
deu-se conta que nem o presente nem o futuro se agarram

tudo é pretérito

no exato instante em que alguma coisa se gera
ela se afunda na torrente irrefreável do tempo

assim tudo é passado
e há nisso uma melancolia extrema
como se na verdade já tudo acontecera

mas curiosamente
perante essa evidência
algo acalenta uma esperança
um instinto desvairado que luta contra o inabalável
uma teimosia que se calhar
essa sim
é o que mais se aproxima de ser presente
que implode a cada segundo e que renasce no seguinte
e assim sucessivamente
sempre derrotada
mas sempre de regresso

e ao ser nem que seja uma centelha do agora
acaba por lançar a sua própria insignificante sombra no futuro

e assim
mesmo que presente e futuro não se agarrem
eles insistem e desistem para todo sempre


ps - Ilha de Porto Santo, Madeira, julho 2022

dia 16 - confissões

contou-me que houve um tempo em que as quedas eram abismais
bastava um olhar e um vento quente de leste a correr
para que num instante ela mergulhasse numa íris ou pupila
das azuladas às esmeralda passando pelas outonais e noturnas

sim entreguei-me a certas febres e delírios
sentia dentro de mim um estremecimento selvagem

enquanto dizia estas coisas
encostava-se na última cadeira do café e já não me olhava

era mais forte do que eu mas também mais forte do que qualquer um
eu uivava a minha loucura para cima de quem encontrava
e era vê-los esses machos tão cheios deles próprios
a escapulirem-se com medo e vertigens
até eu me temia diga-se

eu ouvia em silêncio e atento
ela olhava pela janela
o vidro sardento de gotas de chuva onde a rua era refletida mil vezes

talvez bebamos mais um copo
e quem sabe
pode ser que o meu olhar cansado pálido e ébrio
seja suficiente para que a noite se incendeie uma vez mais no rosto dela
e eu encare essa tempestade de frente

também tenho os meus devaneios de coragem
nem que seja para os desmascarar

dia 15 - orquídeas

as orquídeas vão ditando ritmos
têm os seus próprios invernos

nas cadências silenciosas
a seiva hiberna numa rotina adormecida

e num instante indefinido e difuso
qual predador invisível
anunciam uma ideia de flor

há um milagre que acontece pela calada da noite
e até as manhãs se surpreendem quando a luz resvala num nó de pétalas
e obriga a uma sombra nova que não existia na véspera

às vezes
só às vezes
acontece o mesmo num rascunho de verso ou num esquiço de quadro

se calhar falam a mesma linguagem
um dialeto furtivo e clandestino
proferido nos recantos encobertos e ocultos do que existe

dia 14 - do condenado

jejuou a própria noite
como se por milagre pudesse escapar à madrugada

talvez até o tenha conseguido
vivendo um embuste tão verdadeiro
que se desfez a diferença entre a irrealidade e a noite já velha de tanto ser

o dia quando chegasse que dissesse ao que vinha
por ele já não importava fazer-se perguntas nem esperar respostas
o tempo seria um silêncio e não mais uma conversa

tudo fora dito
ou pelo menos tudo tivera a oportunidade de ser dito
para ele chegava

agora
restava o inominável
e esse infinito teria de bastar

um condenado à morte
uma vez cumprida a sentença
não devia ser obrigado a morrer uma outra vez
mas ainda assim
é sabido
morre-se num dia e morre-se depois num outro mais à frente

pouco importa

ao criar o esquecimento
os deuses sucumbiram ao próprio feitiço
pois nada é novo de facto
somente olvido


ps - detalhe de uma pintura de Franz Sedlacek, "Aparição acima das árvores (segunda versão)"
foto em Viena Abril 2022

dia 13 - somos mais um

para o meu sobrinho
Francisco

uns dias antes de chegares
a irmãe disse-nos

daqui a pouco seremos mais um

e então chegaste

temos cada um um sonho ou dois para ti
temos ideias e sentimentos e coisas
e isso tudo até se pode confundir com um plano

de mim haverá uma bola com certeza
e poesia e música e um olhar que eleve o teu para o cosmos e os infinitos
e mais tarde quem sabe um vinho ou outro e um segredo ou evidência
e o que for preciso e o que nos formos lembrando juntos pelo caminho

mas não é o mais importante
não é o fundamental

o que importa é que haja carinho e um sorriso na alma
seja nos dias mais luminosos como nos mais escuros

chegaste e somos mais um
e ao sermos mais um
somos todos de novo outra vez
graças a ti
somos todos
de novo
outra vez

dia 12 - ascensão

procurou a menor faísca possível
toda ela rodeada do mais profundo dos breus
como se a noite tivesse vindo do início dos tempos e coberto o mundo inteiro

por entre as camadas negras da madrugada
vasculhou até sangrar dos dedos
e da ferida apenas um cheiro coalhado se ergueu até ao rosto oculto

a manhã chegaria com certeza
mesmo que com o atraso de muito poema por escrever
não há silêncio que não sucumba a uma fraqueza

quando enfim o sol nasceu e o dia foi crescendo até ser azul por inteiro
ascendeu
levado por querubins invisíveis

talvez tenha pago dívidas antigas
talvez nessa procura da centelha primordial tenha encontrado o segredo dos deuses

há penitências que desconhecemos até que se revelam e ganham vida própria
e perante o palco da vida se despedem e se retiram



dia 11 - luto impossível

a carcaça de um piano
o luto impossível de melodias inacabadas nos ventos que vêm de longe
que deslizam por uma língua de mar até lamber o porão de uma alma abandonada
como um quadro atracado no deserto perdido de escamas

o rosto sem esgares nem alívios
silhueta derramada nas areias esquecidas de um tempo que se calhar nem passara

quem sabe se estas coisas são verdade
ou plágios de uma outra vida

certo é que vibra algures entre o silêncio e o que é dito
um rumor indomável e selvagem

só assim se explicam a soturnidade e outras melancolias

dia 10 - o romance por escrever

contou-me uma história

apaixonara-se por uma mulher de nome de Lara
que mais tarde descobri ser o nome de uma primeira namorada do primo
e que quando ele ouvira o nome na infância
de tal forma se encantara que talvez aí tenha imaginado a sua

paralelamente a esse amor
vivia perseguido por uma espécie de grupo organizado
uns caçadores de escrita disse-me
vestidos de fato preto e gravatas da mesma cor apertadas nos colarinhos de camisas brancas já gastas

vivia uma realidade peculiar
e ao mesmo tempo que era precisa e rica em detalhes
também era abstrata e difusa

optei por confrontá-lo
segui-lo pelos delírios a ver se a verdade se revelava por si só

disse que tivera de escapar
deixá-la para trás para fugir a essa gente
que se exilara num destino antigo de férias
onde em tempos ela e ele se amaram com a sede e a fome das paixões

foi-lhe escrevendo mas nunca recebeu resposta
até que descobriu que estava para morrer
com essa notícia decidiu enviar-lhe uma última carta e recolher-se a lembrá-la por dentro
queimar em monólogos internos os dias que lhe restavam

e eu que o segui pela narrativa
dou comigo à beira de um mar final
as mãos por doer pelo que ainda não foi escrito


dia 9 - a espera

nos arquipélagos dos sonhos
onde envelhecem palmeiras devagar
encontram-se os suspiros de sempre
e as sedes nunca saciadas do presente cansam-se sozinhas
até serem abandonadas pela nossa própria resignação

há sempre um triz de desistência antes da esperança regressar
um instante em que já nem o corpo clama por uma alma que o preencha ou o carregue
um céu órfão de voos das aves que há muito se evadiram
pedras silenciosas por debaixo das ondas
banhadas por espumas que vão e espumas que vêm
e marés indecisas que ora recuam ora avançam

no exame celeste
o olhar desliza pelo firmamento
resvalando nas subtis matizes azuladas do éter
num instante mais profundas
noutro mais leves e luminosas

enquanto o olhar desaba e naufraga
sobra sempre essa vertigem de infinito

e até aprendermos a caber num poema
os versos suspendem-se e aguardam
numa espera que arde em lume mudo

dia 8 - pertenças

escreveram uma pequena história sobre eles
falava de um quarto que era dela e da vista da janela que era dele
tornara-a dele mesmo se a vista fazia parte do alheamento de ambos

o quarto era dela portanto
o calor e o suor eram deles
e o silêncio do depois não era de ninguém
órfão e perdido errava pelas manhãs que se faziam tarde

enquanto ela se arrependia sem sequer se aperceber
ele ia à janela disfarçar o incómodo

no fim
para ambos
a perfeição desértica dos corpos derretidos um do outro
contrastava com o remorso do antes e o remorso do depois

ela afundava-se nela própria
ele esfumava-se à varanda na paisagem exterior

ambos estavam de acordo no desacordo dos seus feitios
um amor imperfeitamente completo e por isso perfeitamente escusado

cada um com o que era de cada um
um quarto uma vista
e um certo desencanto que ainda assim não era o suficiente para impedir um entretanto
esse entretanto que desunia o tal silêncio por umas horas

um entremeio de fogo pelos corpos abandonados um do outro

dia 7 - onde nem palavra nem silêncio reinam

desta vez falou mais pausadamente
não parecia o louco de outras noites
e parecia procurar com o que dizia
não apenas compreensão
mas também uma qualquer absolvição
como se cada um de nós que o ouvíamos fôssemos sacerdotes de um qualquer culto
(o que não anda longe de uma verdade)

eles levam-me de noite para caves de prédios devolutos
e obrigam-me a escrever

não sou o único nessa penitência que não sei de onde vem
outros há a meu lado que pela madrugada fora se debruçam sobre papel e silêncio

quando o sol ameaça nascer
roubam os rascunhos e despejam-nos para a manhã mais solitária de sempre

não tenho como provar o que afirmo
mas acreditem para que não morra sozinho este meu delírio

calou-se até lhe encherem o copo de novo
ninguém respondeu
mas trocámos olhares cúmplices entre os ouvintes

sabíamos que dele já não haveria mais palavras escritas para extorquir
logo à noite não valeria a pena entrar-lhe pelo quarto dentro e levá-lo
este estava vazio de esperança
sobrava-lhe um curioso sentimento de culpa
mas isso era para outro tipo de gente explorar

nós o que queremos são palavras cravadas e forjadas até darem a volta a si mesmas
ansiamos pela revelação de um absoluto
cremos no dia em que tudo acabe por ser dito e nada mais haja a dizer

almejamos por esse instante onde nem palavra nem silêncio reinam



dia 6 - pontuação

disse-o algures num pretérito velado
que a minha pontuação se rege pelo sopro dos versos
que não existem pontos nem vírgulas que não sejam ditados pelo pulmão

as perguntas ou exclamações revelam-se na fluidez do que é dito

é certo que por vezes se confundem as intenções e a rebeldia inata das palavras
mas isso é o que acontece quando arde a poesia no incêndio que é

não distingo prosa ou poema
somente fôlegos
uns cavalgam até ao desmaio
outros cravam-se num instante fulminante de libertação

a epifania do que vou dizendo
é órfã de leis e dependente de cada leitura selvagem

não sou eu que escolho estas coisas
elas vão nascendo e morrendo com cada leitor
esmorecendo até o próprio eco emudecer
sem rastro nem memória

dia 5 - náufrago

ouvira falar de magos errantes
e recordava-os agora entre silêncios e solidões tímidas 

tinham-lhe dito que se juntavam nas clareiras possíveis dos sonhos
e que por ritmos invocados ao cair da noite
e velas a debaterem-se com os últimos soluços de pavios cansados
se agarravam às chamas no limiar da luz e das sombras

até que nos derradeiros instantes
antes de um manto de breu cobrir de vez essas noites de encantamento
e enquanto os outros tapavam os olhos entre os joelhos
um deles abria os braços ao céu anunciando a tempestade final

nestas alucinações e suores noturnos
a febre vinha de um lugar sem nome
ardia pelas planícies do corpo até que o incêndio do espírito
fundia céu chão e horizonte
cegando não só a vista mas também o própria alma

quando a manhã chegava
e a cama alagada escorria pelos lençóis até ao mar da rotina 
voltava a naufragar

e
à deriva mantinha-se
até um novo delírio o afogar uma vez mais



dia 4 - arrepio cósmico

na aparente ordem a desordem
porque existe um jogo de sombras
que empata na geometria final

pergunto-me se os infinitos também acabam
se se cansam de tanto ser e se se desalentam até se renderem

haverá um limite para lá das formas e até mesmo da poesia
um cessar de tudo o que pulsa

só o que finda pode dar lugar a um recomeço

e a esperança e o assombro
hão de pedir um silêncio para clamar

só quem sorve as madrugadas de insónia e de versos arrancados à loucura
pode imaginar uma manhã que nunca acaba de nascer
como se o tempo não se cumprisse e ainda assim todo ele se desenrolasse de uma só e única vez

tudo e nada
implodindo até ao âmago
até a um arrepio cósmico na alma que nos calhou


dia 3 - simetria

existem outonos que não terminam nunca
erguem-se ao ritmo da seiva
e tombam em cadência lenta

dizia estas coisas para ele próprio
sem audiência e no escuro de um quarto

quando se chegava à janela
e lá fora o silêncio era ainda mais denso
sustinha a respiração até não poder mais
e um sopro lhe fugir pela boca embaciando o vidro brevemente

esta árvore tem séculos
e sei-lhe o segredo

antes de fechar a janela
completou

é o segredo da simetria
onde os ramos são raízes
e as raízes galhos num céu de húmus


dia 2 - tanto é muito como nada

lá atrás escrevi um poema que nunca cheguei a ler
no entanto sei-o de cor

não os versos nem as palavras
mas o âmago o tom e o caminho

disse por lá coisas que me saíram da alma
disse-as da única forma possível na altura
com falta de ar e a voz tragada por um desalento que não ousei contemplar de novo
pelo menos de frente

ainda assim
agora
passados outros poemas esquecidos
o que sobra
tanto é muito como nada

não me lembro dos versos nem das palavras
mas recordo o desmoronamento da alma
os ventos de uma tristeza sem rumo
e o labirinto emaranhado dos sentimentos

esse poema jaz algures
não cheguei nunca a mostrá-lo
e quando o vou espreitar
olhando-o em rascunho silencioso
revela-se como bruma desfocada

e eu
desconhecido de mim mesmo
ou pelo menos esquecido de quem fui
questiono se o passado existiu mesmo
ou se tendo existido
será a razão única do assombro

isto
tanto é muito como nada
o que já é alguma coisa




dia 1 - começar por ela

começar por ela
deixar que o ano se desenovele
se espraie pelo cabelo cacheado da minha rendição
da minha incondicional rendição aos pés do porvir que agora nasce

é sabido
todo o início é uma promessa
toda a viagem um regresso
todo o final um silêncio

que os versos tragam um pouco de noite
que as madrugadas tragam os dias seguintes
e assim sucessivamente até que o uivo seja maior do que a lua

não há princípio que não se esgote
não há poesia sem melancolia e um pedaço de solidão
não há amanhã sem a silhueta dela a desenhar os contornos do universo

começar por ela
para que nada falte
nunca