dia 107 - o invejoso

acabava sempre por exagerar
e era já tarde demais quando confundia a bebida dela com um cigarro
e o desprezo dela com insinuação
e a mesa com a almofada desejada

mas ainda assim
sabia que amanhã lá estariam de novo
prontos a representar os seus papeis

ela falaria dela e ouviria pouco
ele ouviria metade e beberia muito

ainda se lembrava de como tudo começara
de como ela é que o tinha procurado
ele que já povoava as mesas solitárias do bar há anos

tinha-se sentado sem aviso uma noite
e começado a falar

eu sei que não me conhece
mas preciso de uma bebida e de desabafar

ele de facto não a conhecia
mas não se importara em ter companhia
e bebida não faltaria

assim foram repetindo o cenário
uma noite por semana no início
três ou quatro ao fim de alguns meses

uma ou outra vez tinham acabado na cama juntos
mas na maioria das vezes cada um regressava à própria solidão

nos momentos em que partilhavam a mesa
pelo menos procuravam que as solidões se anulassem
às vezes sim
cancelavam-se uma à outra e tinham onde pousar o olhar e um outro corpo para seduzir
às vezes dobravam
e quer eles quer o silêncio naufragavam no álcool e numa melancolia partilhada

o que é certo
é que eu
na minha mesa ainda mais isolada
ao espiá-los para lá de mim
tragava uma inveja cuja sede era impossível de matar
e não era por falta de tentativas


"A Fina e o Borracho", desenho de Álvaro Siza Vieira, 2008; 3ª Bienal Internacional de Arte de Gaia, Quinta da Fiação, Lever, Vila nova de Gaia, abril de 2019

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