de poalhas de névoa que surgem sem aviso
sem forma
moldam-se ao olhar e ao que já vem de trás
ganham contornos efémeros que convidam à entrega do desconhecido
mais do que encobrir
seja a floresta a estrada ou a margem que se adivinha do outro lado
elas revelam outros caminhos e outros precipícios
são um mar em si
com marés ditadas por outras correntes e um sal de outro sabor
nele vivem outros seres
guiados por ecos sem origem aparente
donos de uma cegueira que enxerga de outra maneira
entes que se insinuam velados por esse xaile leitoso
quem sabe se de lá
desse mundo onírico
não nos olham a nós e à nossa realidade com a mesma estranheza
quem sabe se não desconfiam da matéria concreta das coisas deste lado
se não se assustam com a solidez superficial da substância e com os contornos definidos dos nossos corpos
eles que vivem em fronteiras líquidas e etéreas
como reagiriam ao notar os limiares distintos do nosso universo com cada coisa em seu lugar
em que língua falaríamos uns com os outros
eles com a delicadeza oculta das brisas
e nós com o reverberar das palavras por oclusão e vibração
que sítio nos acolheria a ambos sem quebrar as leis de um ou do outro
haveria que encontrar um lugar comum
esse
onde a névoa desliza ao de leve sobre o rio e ladeia as pedras dos cais
talvez a poesia pudesse amparar-nos a todos na sua pátria
e à vez
nós e eles
declamaríamos os versos possíveis
tecendo o mapa partilhado das nossas vidas
invocando deuses
tanto os que nos criaram como aqueles que imaginámos
falaríamos de amor e de solidão
confessaríamos as culpas e os arrependimentos para que pudessem escapar pelo desabafo
poderíamos abraçar o silêncio até nos entendermos definitivamente
tudo seria possível numa comunhão de almas
das lendas chegam relatos de neblinas
e o que contam é um caminho sem volta
para lá desses véus singra-se além dos infinitos
voa-se por entre constelações cujos nomes ainda nem se conhecem
nós deste lado
enquanto os nevoeiros não se dissipam
sorvemos essas miragens com pasmo e rendição
pudéssemos nós colhê-los com as mãos
e num gesto atirá-los por cima dos ombros
vesti-los como uma capa
esfumando-nos nós também por esse manto difuso e místico
talvez
afinal
sejamos oriundos de brumas
quem sabe se não foi de lá que viemos
e por isso
esse anseio que sentimos
explica que os olhos se enevoem também antes das lágrimas
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