escreveram uma pequena história sobre eles
falava de um quarto que era dela e da vista da janela que era dele
tornara-a dele mesmo se a vista fazia parte do alheamento de ambos
o quarto era dela portanto
o calor e o suor eram deles
e o silêncio do depois não era de ninguém
órfão e perdido errava pelas manhãs que se faziam tarde
enquanto ela se arrependia sem sequer se aperceber
ele ia à janela disfarçar o incómodo
no fim
para ambos
a perfeição desértica dos corpos derretidos um do outro
contrastava com o remorso do antes e o remorso do depois
ela afundava-se nela própria
ele esfumava-se à varanda na paisagem exterior
ambos estavam de acordo no desacordo dos seus feitios
um amor imperfeitamente completo e por isso perfeitamente escusado
cada um com o que era de cada um
um quarto uma vista
e um certo desencanto que ainda assim não era o suficiente para impedir um entretanto
esse entretanto que desunia o tal silêncio por umas horas
um entremeio de fogo pelos corpos abandonados um do outro
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